sábado, 30 de dezembro de 2017

As nossas pessoas

As nossas pessoas, são nossas, desde sempre. Moram perto e longe, como calha, mas têm lugar cativo no turbilhão dos dias que acontecem. Sempre à mão de semear, cultivam, em boas jornadas, bocados de terra onde germinam as utopias. Conhecem-nos e vigiam-nos, com olhares disfarçados e discretos, porque não são intrusivos nem esfuziantes. As nossas pessoas estão lá, onde precisamos e nem sempre se mostram, porque conhecem a liberdade como principio de relação. Mas respondem sempre à chamada e nunca mordem a corda do nosso fio de prumo.

https://3.bp.blogspot.com/-F6VWFS3ujwM/WJc-PlhrbwI/AAAAAAAAnGI/hH9zGemxjwc9UnaFVhLQ2g8-bXOunKNLgCK4B/s1600/Curso%2BPintura%2Bnaif.jpgAs nossas pessoas, são nossas, não porque as aprisionamos em nós, em jeito de troféu ou montra, mas porque fundam muito do que aprendemos a amar. Misturam coisas connosco e fazem parte de histórias a que damos vida, que de outra forma não teria sentido. As nossas pessoas conhecem as nossas palavras e propósitos e entendem-lhes o futuro.  Por isso velam por nós e às vezes chamamos-lhe anjos, amigos, pais, filhos ou irmãos. As nossas pessoas são do nosso sangue e do nosso coração, por sorte, escolha e condição.  

As nossas pessoas dão-nos alento, identidade e certezas. Às vezes, de braço dado com o destino, trocam-nos as voltas e deixam-nos sem pé, bebemos as lágrimas e escondemos a dor da sua partida. Teimosos, recompomos os dias e voltamos a convocá-las para a nossa casa e o nosso tempo. Em fotografias, poemas, saudades, memórias. Porque são as nossas pessoas e fazem absolutamente parte de nós. 


A casa

A casa tem a nossa vida
a casa está cheia de nós
de coisas arrumadas e desarrumadas
tapetes sapatos livros
retratos discos
quadros
as naturezas mortas estão todas vivas
alimentam-se de nós
e há móveis que foram de outras casas
e de pessoas que fomos nós antes de nós
a casa tem seus ritos e seus ritmos
canetas de tinta permanente
cadernos e papéis sobre a secretária
madeiras e paredes connosco dentro
a mesa com seus talheres e seus copos
e o nosso pão e o nosso vinho
camas por fazer e camas já vestidas
cadeiras onde nos sentamos
e mesmo sem nós ficam sentadas
a casa com seus passos e seu espaço
de silêncios
a casa com sua fala
a casa com sua alma.

Manuel Alegre "Nada está escrito", 2012


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Assim me queria

Queria um oficio para trabalhar palavras como essência do mundo. Apresentar-me artesã das coisas principais e saber, na aflição dos dias, escolher as doses certas para o nosso viver. Conseguir, na imensidão do tempo, convocar o melhor de cada um, em doses justas e perfeitas. Caldear, na bruma do que somos, trevas e luz, alegria e choro, cansaço e rebeldia e obter a sua dimensão exata. 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9b/Mo%C3%A7a_no_Trigal_-_c.1916.jpgQueria apenas esculpir o trigo apropriado para as sementeiras da terra que nos circundam, misturar cozedura do pão e amor crescente, adubo seguro para os afetos. E apresentá-los como a coisa principal, no palco da nossa vida. Retirar, com minúcia atenta, os desperdícios que nos moem a alma, limpá-la de todas as impurezas, conseguir a obra mais clara de nós. Esculpir apenas e só o essencial.

Queria sacudir de mim os restos de tudo que nos consome, libertar o corpo e o pensamento de ideias inúteis, pequenos delírios das nossas certezas e vaidades, coisas breves e no entanto, tão empolgadas na hierarquia do que vivemos.

Queria esculpir as palavras certas e necessárias deste oficio que me persegue e de que não dou conta. Fazer um glossário novo, pequeno e essencial, acertar os seus sinónimos, perseguir os contrários, enunciar outros sentidos. 

Queria um oficio de trabalhar palavras como essência do mundo, mas sei que é tarefa de monta e coisa improvável. Não impede que me persiga, a cada dia e hoje também, nesta espera pelo ano novo.


domingo, 17 de dezembro de 2017

Natal. Outra vez.

Vai ser natal. Outra vez.

Nas escolas, a semana foi de festa, correrias e agitação. Esperemos que de bem com a pedagogia, porque o stress imposto e adultizado, não casa com o menino ao colo da sua mãe e o ar sossegado do burro na manjedoura. Nem com as prendas do pai natal, esse velhinho amigo, que dizemos lembrar-se de todos, mas sabemos não ser verdade, porque o mundo é infinito e infinitas são também as condições dos meninos e meninas, algumas escandalosamente injustas, que não há como fazer milagres lá do céu. A fazer, seria aqui da terra, com a exigência de uma vida certa e justa a que todos têm direito. Mas andamos tão ocupados e concentrados em nós, quase sempre distraídos e resignados, face à estranha ordem das coisas. E queremos? Sim, pois, queremos...então, temos que fazer acontecer, porque a única coisa que cai do céu é a chuva...

http://www.obrasdarte.com/wp-content/uploads/2015/01/Waldomiro_de_Deus_Casal_Feliz.jpgVai ser natal. Outra vez. E rendemo-nos de novo à ceia e ao amor dos nossos junto à mesa, a agradecer estarmos vivos, com saúde e em família. Que diminui e aumenta, porque a vida é um rio que não pára, misturam-se as partidas e as chegadas, provando que estamos todos no cais, a acolher e a largar quem nos fez e quem fizemos, neste lugar que é a terra. Do cuidado com que nos criaram, do cuidado que soubemos e pudemos dar a quem, do nosso coração e da nossa barriga, lançámos para o mundo.

Vai ser natal. Outra vez. E aceitamos os risos e as boas festas, lembramos os amigos e agradecemos a sua presença na nossa vida. Pelas rabanadas e pelas azevias, mas sobretudo pelo tempo que nos concedem, que roubam ao seu destino, para connosco construírem dias novos e ousados. Que são uma luz e um desafio para o nosso viver e a nossa procura de sermos pessoas.

Vai ser natal. Outra vez. E apesar de podermos estar mais sós e menos contentes, vamos acertar o dia e a noite com a nossa sorte, banindo o desconforto do que não pode ser. Da pobreza que existe, dos atropelos à dignidade, das vidas maltratadas, dos amores que já partiram, dos sonhos não cumpridos. E se rezarmos, saibamos que podemos e devemos, para além disso, renovar os nossos compromissos de cuidado ético e convictamente atento para com o mundo, na vida dos que nos cercam.

Porque vai ser natal. Outra vez.  

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Intenção natalícia

Da persistente chuva a cair no dia, retirou algumas gotas de água para alisar a manhã, afastando de si o desconsolo e a melancolia. Queria-se outra, mantendo-se inteira, neste dia cinzento de dezembro. As árvores em solidão, na rua, segredavam outras histórias, mas recusou sentar-se no colo de saudades antigas. 

http://www.tempoagora.com.br/wp-content/uploads/2017/01/Chuva-fraca_3.jpgInundou a sala de estrelas, postais de amigos e imagens do menino na manjedoura, algumas fitas e bolas cintilantes, compondo com a máxima serenidade, as cores e as palavras do natal. Impôs, a si mesma, destronar pequenas dores de outrora, convocando para casa todas as presenças, que em si, foram revelação, amor e amparo. E elas vieram e ficaram, ocupando os lugares de sempre.

E assim foi ficando cheia de natal, com laivos de esperança e remoção de tristezas. Depois, e porque faltavam as palavras, inebriou-se nelas, sentada junto às decisões do dia, em dezembro, num dia de chuva. 
 
NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre  
 

domingo, 26 de novembro de 2017

Recordar a Infância

Tinha-se esquecido de tudo, mas não das pedrinhas lisas que guardava no fundo da gruta. Nem do cheiro da brincadeira no fim do verão, a arrastar mil risos e demoras, em lugares cheios como os da rua, por entre carros de bois, bicicletas distraídas e portões fechados ao cair da noite. 
Tinha-se esquecido de tudo, mas não das festas breves em gatos pardos, picos de roseiras bravas em cômoros de amoras, salpicos do mar bravo aos domingos, o jeito da areia a arranhar a pele. E a pele morena de tanto sol. Vem para dentro, ficas trigueira! Ser menina e ser recatada, branca e pura, branca e leve, ter destino e desconhecer.

https://i.pinimg.com/736x/59/79/38/5979387a5be42cf93e3699a083956178.jpgTinha-se esquecido de tudo, mas não do quente do café à lareira da casa, da broa a fumegar em forno de lenha, da languidez das histórias contadas ao luar, por entre sustos bons e protegidos. Um arrepio na barriga e a alegria de escutar os uivos do lobo no cimo do monte. E fazem mal? fazem, pois, mas não vêm cá, descansa.

Tinha-se esquecido de tudo, mas não da casa da mestra, meninos para um lado, meninas para outros, então, que de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que se quer e assim é que está bem. As canções de roda e o faz de conta, missas e batizados, água fresca do poço em pucarinhos de alumínio, o terço no final do dia, por entre segredos e distrações consentidas. 

Tinha-se esquecido de tudo, mas não das rodelas de batata com azeite sobre a barriga, nos dias mal- humorados da vida a acontecer. Nem das palavras doces para amparar desgostos e revelar mistérios, aquele das barrigas a crescerem, sem medo e aviso prévio, e com bebés lá dentro. Nem das idas à igreja, por entre silêncio e rezas, nem da feira, da venda e das conversas amigáveis dos crescidos.     

Tinha-se esquecido de tudo, agora que o tempo era mais curto e menos brincado. Mas mantinha dentro de si, as pedrinhas lisas, os gatos pardos, as gotas de mar, os uivos dos lobos, a casa da mestra, as canções de roda, o silêncio da igreja, a faina da venda, a elucidação da vida. E sobretudo a imensa presença do tempo longo em fins de tarde, a arrastar mil risos e demoras e muito brincar.
Talvez afinal se lembrasse de quase tudo... 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Se cá estivesses...

Ontem fez dez anos que partiste. Lembro-me de levar os rapazes à escola e ao chegar à minha, ter tido essa noticia, de forma abrupta e violenta, incompreensível. Que outra forma existe para saber que ficámos sem chão e sem colo? 

http://2.citynews-leccotoday.stgy.ovh/~media/original-hi/50228517844170/varenna-mostra-naif-2.jpegSe cá estivesses, verias como as minhas rugas se multiplicaram, os cabelos estão cada vez mais brancos, e as mãos, as minhas mãos, parecem-se cada vez mais com as tuas. Notarias também que algumas das coisas que digo fazem rir os teus netos, entre o divertido e o (in)conformado, comentando então, isso nem parece teu! Mas é. Porque a vida passa e todos vamos para lá, como dizias a rematar a conversa, quando tentávamos que brigasses com os medos e silêncios do teu corpo cansado.  

Se cá estivesses, talvez discutíssemos as noticias do dia, no meio das perguntas que fazias para te inteirares do desenvolvimento do mundo e das pessoas, recusando as novelas e os programas de entretenimento. Se cá estivesses, fazíamos a sopa em conjunto, contigo a gabar os brócolos e os grelos e a querer batatas em vez de arroz. Se cá estivesses, hoje, verias os teus netos e juntas, teceríamos palavras a retocar o amor que sentimos por eles.  Se cá estivesses pegarias na tua bisneta ao colo e os teus olhos ficariam cheios de alegria à mistura com uma lágrima contente.

Se cá estivesses...mas não estás. E eu escrevo estas palavras para que a saudade saia de mim e tu continues viva e inteira junto de nós. É assim que te quero e te queremos, hoje e sempre, mãe.  

sábado, 11 de novembro de 2017

Venha o natal

Logo pela manha enredámo-nos na pedagogia, como coisa nossa e dos dias, educadores que somos em jornadas de muito amor e cansaço. A lei dos contrários, a confirmar que a vida não é um mar de rosas e que temos que permanecer lúcidos para retirar os espinhos das flores que acolhemos no regaço. Com muito cuidado e afinco, para não desistir deste cuidado permanente de que somos autoras. 

https://i.pinimg.com/236x/17/89/df/1789df32a69854cf8cdb94d2f90bb26c.jpgEnredámo-nos na pedagogia, primeiro em forma lenta, que a manha ainda estava com sono e o nosso corpo adormecido, depois de maneira ativa, barulhenta, partilhando, contrapondo, discutindo e apresentando as nossas razões das profissionais que somos e queremos ser. 
Continuamos ligadas ao sonho de que se a educação não pode tudo, alguma coisa a educação pode e nós podemos. Em grupos de aprendizagem e parceria, sem medo de falar dos erros, certas de que muitas cabeças pensam melhor que apenas uma, e que se eu ainda não sei, posso aprender. Com colegas, com as crianças, com as famílias. 
Com autores de referência e sobretudo com a reflexão sobre as práticas. Com sentido ético e vigilância critica, para questionar as nossas representações e as rasteirinhas do quotidiano, que nos fazem dar o dito pelo não dito e sermos menos gentis, sensíveis e disponíveis para os meninos e as meninas lá da escola.

Enredámo-nos na pedagogia e falámos de planeamento, ação, plano do dia, escuta da criança, participação, envolvimento, instrumentos, projetos, currículo emergente...tanta coisa, tanta coisa, tendo por mote quem somos, o que fazemos e o que queremos mudar para uma educação cuidadosa e promissora de um melhor presente e um futuro amigo.

Depois regressámos a casa, que temos gente à nossa espera e vida para além da escola, com ela sempre em redor. E fiquei a ver o cai da noite, a apreciar o frio que cheira a natal, a respirar silêncio, a dar descanso às palavras, emoções, significados...que nos tinham enredado pela manha.

E desejei que fosse quase natal, que o menino estivesse pronto para ir para o presépio, que a lareira queimasse a lenha e que a mesa, linda e vermelha, nos reunisse a todos à sua volta, com beijos, arroz doce e rabanadas.  Porque a pedagogia assim pensada, vasculhada e refletida, desgasta e consome energia, perdurando em nós, como o eco num vale. A manha foi de luz, diálogos a muitas vozes e interação permanente, agora quero e procuro o silêncio e o natal.