sábado, 4 de fevereiro de 2017

De novo, a amizade.

O vento a soprar lá fora e eles por ali. Entravam na sala e sorriam, oferecendo olhares brandos e comedidos, a sondar caras e corações. Abraços e sorrisos íntimos, um como estás e como andas, perguntas que eram mantas e colos para todos se deitarem. Na sala, um espaço manso de alegria cobria algumas dores escondidas no corpo e na alma. Tudo devagar, tudo a preceito, tudo composto de gestos discretos e palavras sensíveis.  

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/49/ed/0b/49ed0be98f41bca556f92be0a86abb98.jpgTinham vindo aos poucos, e ali estavam, queriam mostrar-se e recolher-se, gerindo em parcerias implícitas, a imensa dureza da realidade. Discorriam sobre tudo e sobre nada, dispostos a aconchegar-se entre si, resgatando pequenas histórias e vínculos que os uniam. Sentiam, uns e outros, que esse era um património justo das suas vidas. Ali estavam e ali queriam estar, para dizerem presente à convocatória mal redigida do destino. Entre surpresa e aceitação, faziam da noite uma ode à amizade, resistindo, em doses certas de coragem e persistência. Uns e outros.

Quem se pusesse à entrada da sala, podia ver a imensa serenidade dos afetos. Iluminavam-se as rugas e a cumplicidade, pelos anos de convívio e de sonhos, percetíveis nos gestos de afago e na insustentável leveza do ser. 

Quando cantaram, na penumbra da sala, souberam mais uma vez, colocar a voz e os corações ao alto. Cada palavra foi  uma espécie de grito e de flor para traduzir o presente em companhia. Amorosamente, como apenas pode ser.
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A casa grande

A casa grande foi sempre grande, mas estava mais cheia e não se sentia o vazio. Quando foi escolhida, os rapazes disseram que sim, o pai também e a mãe anuiu, sem partilhar o mesmo entusiasmo. Contra as expectativas, preferia lugares mais pequenos, garantia que davam maior aconchego e proximidade.

A casa grande cedo se tornou necessária e feliz para quem nela veio morar. O avô, homem de poucas falas e muitas saídas, que da casa grande podia ir ter à sua, num ápice de liberdade e autonomia. A avó, perdida no jardim e no portão, olhando a rua e as flores, à espera de bocados de histórias que lhe ofereciam ao final do dia. Os rapazes, com sonhos de espaço e independência, todos ao molho e fé em Deus, nas noites em que os amigos cá dormiam, mas cada um no seu quarto, quando a rotina se impunha e a intimidade exigia lugares para ser e ficar só;  O pai à volta do sótão e dos livros, das suas coisas e loisas, com dias de jardim, a rir pelas uvas apanhadas, a domar o crescimento desenfreado de ervas daninhas,  A mãe, contente com o refugio para a escrita, mas dispersa por todos os lugares, numa espécie de radar ligado, estar aqui e ali, mas também acolá.
 
Imagem relacionadaA casa grande teve dias em que foi pequena, festas de anos, noites de natal, S. Martinho e S. João, gente a entrar e a sair, amizades grandes e eternas, conversas soltas, abraços, lágrimas e alegria. Testemunhou  o crescer da vida, conteve tudo o que nela foi vivido, gente mais nova e gente mais velha, borbulhas dos rapazes e amores destroçados, amuos de avós e rugas sem parar, doenças e partidas, queixas e afagos, liberdade, inquietação e amor. Acolheu todas as mudanças e caminhos percorridos 

Depois os anos passaram e a casa foi ficando mais vazia. Primeiro, partiram os avós, cada um por sua vez, deixando vazios os quartos, os lugares na mesa, as conversas à noite, junto à televisão. Uma saudade imensa, amenizada pelas memórias e fotos na sala. Depois partiram os rapazes, um primeiro e o outro a seguir, fazendo-se à vida, como autores de sonhos na primeira pessoa do singular. E ficou o pai e ficou a mãe, de volta do sótão e do jardim, dos projetos e do trabalho, da casa e das memórias, cuidando-a e cuidando de si, para alento do que foi e do que ainda pode ser. E a casa ficou maior e mais vazia. Mais grande, ainda. 

Mas em alguns dias, a casa volta a ser pequena, de novo. E é uma alegria. Enche-se de amigos, dos rapazes e das suas companheiras, dos sobrinhos e dos pais, de outras famílias, é um entrar e sair, ficar e permanecer, relembrar e construir outras maneiras de ser casa e ser família. Com laços de sangue e laços de coração, que as famílias tomam as formas que quisermos. As casas também, simbolicamente falando. Porque não se pode impedir que sejam da forma que são, maiores ou mais pequenas. E esta é grande. Em espaço, em memórias, em referências. Assim possa continuar, por muitos anos. E que possa ser em muitos dias, pequena, pela presença de muitos. Os que amam a casa e a casa ama. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

No ano novo e durante todo o ano

Andamos todo o ano cheios de nós.
Mais ou menos equilibrados exercemo-nos em muitos lugares, casa, trabalho, cidade, jardim, espalhando a seiva do que somos, tentando regar um tempo fértil e fecundo. Nem sempre nos lembramos da vida mais longe, prisioneiros que somos do nosso umbigo e do nosso ADN de gente situada. Estamos aqui e agora e isso basta. E às vezes (muitas vezes?) o nosso quintal fica maior que o mundo todo. É quando as ervas daninhas se tornam ásperas e crescentes, impedem que nos assolemos à frente da porta da casa para olhar o fim da rua e a linha do horizonte. Não alcançamos as cores da vida fora de nós e limitamo-nos a tomar as partes pelo todo. Se estamos bem tudo está bem, se estamos mal, tudo está mal.

Imagem relacionadaPerto do ano novo, a época induz-nos uma espécie de alegria e de esperança, a visão ganha acuidade, enxergamos com mais ousadia o mundo para além de nós. Queremo-nos em unidade com o cosmos e desejamos a todos um bom ano, enchendo-nos de promessas e votos, que distribuímos aos outros, numa generosidade sem limites. Não poupamos nas palavras, nem nos abraços, nem na expressão do amor e da amizade.

E o amor e a amizade ganham a dianteira, tornam-se as coisas pelas quais nos dirigimos ao mundo e aos nossos, reconhecendo-os como água, pão e calor da nossa vida. O principal e não o acessório. O fundamental. Para a nossa vida pequena, de trazer por casa, e para a outra, mais distendida e alargada, em consonância com o desenvolvimento da terra e das gentes que nela vivem. Alguns, muitos, sem vida digna e sem limites para a exploração das suas condições quotidianas. Alguns, muitos, em cenários de pobreza, destruição e atentados aos seus direitos de liberdade, democracia, pão e comida sobre a mesa.

Neste final de ano, que possamos construir para todo o ano que aí vem, uma visão permanente do mundo, para além da nossa casa e do nosso jardim. Que saibamos cuidar do nosso olhar e do nosso cuidado aos outros. Com os nossos, sempre e para além dos nossos, também. Que saibamos resistir, intervir e manter a radicalidade plena da indignação. No trabalho, na rua, na cidade. Todos os dias. Com amor e amizade. 
   

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Postal de natal

Falta-me, neste natal, a tua presença. Está frio e os dias amanhecem com sol, numa claridade mansa,  salpicada de gotas de orvalho nas pétalas macias das rosas. Há um convite implícito para ser feliz, visível na beleza nua das árvores e na lembrança do riso cristalino das crianças em tempo de recreio. Calcula-se a vida por unidades de afetos, contas justas e certas, anos de amor que enchem a alma, perfumes de verão que se eternizam em nós. Mas é dezembro e natal e fazes-me falta.

Resultado de imagem para imagens de presépios recicladosFazes-me falta para me acompanhares com passos miúdos e sonhos gigantes, desses que crescem e se instalam num lugar seguro, de onde só saem quando esquecidos. E não queremos esquecer. Porque o sonho nos embala a razão, tem o tamanho da nossa idade e serve de bússola nas noites mais geladas.

E faz frio neste natal e falta-me a tua presença. Para partilhar em silêncio a alegria de estarmos juntos, decorar a árvore da sala, mexer lentamente o arroz doce, acender as velas e rir da eterna juventude dos rapazes. E aquecer as mãos junto à lareira.

Não sendo novo nem de agora, a tua ausência torna-se mais presente nestes dias. Uma espécie de vigília ronda o coração, tecendo lembranças antigas, convocando-te para que te acomodes entre nós. Estamos cá todos e outros vão chegar, porque o natal é com quem nós quisermos. Fazes-me falta.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Natal

Penso nas escolas e penso na infância. Em algumas, pois, que escolas há muitas e infâncias, também. Penso e respiro. Penso nas infâncias mais difíceis, aquelas que me perturbam e me retiram a esperança nos homens. Penso e inquieto-me com a vida e a roleta da sorte. Penso no destino e nas escolhas. Penso que não há solução à vista para abrandar a indignação. Penso na pobreza, nas crianças à procura de abraços e na enorme desvantagem de não ter como aquecer o corpo e os sonhos.

Penso nas escolas, nas salas de aula, nas mesas e cadeiras, nas letras e números suspensos no quadro preto, coisas estranhas de aprender, funcionalidades curtas e sem sentido para o dia que cresce e vai anoitecer sempre igual, nos lugares mais escondidos da vida e do tempo dos meninos e meninas da escola.

Resultado de imagem para imagens arte naif natalPenso neles, nos seus risos e movimentos, nas birras e brigas, nos gritos, protestos desordenados de mau estar e inquietação, consciência aflita dos direitos não cumpridos. Penso neles e no que sentem sobre a desigualdade, expressa nos cuidados e aconchegos que não têm. Penso na radicalidade de chamar as coisas pelo nome, porque vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar.  

Penso nos professores e na dificuldade de escapar aos contornos e rasteiras do contexto, impor-lhe trâmites e limites, desafiar os seus efeitos perversos. Penso nos professores como arautos da mudança, fazer de novo e sem inércia, combater os medos e propor a alegria. Penso na possibilidade imensa dos seus afetos, do bem querer e do cuidar, coisa primeira para a relação, lastro certo para definir o prazer de aprender. Antes, durante e depois das letras e dos números. E para além dos rankings. 

Penso nisto tudo, neste natal. No cheiro dos doces e nas lareiras acesas e nos meninos que não têm direito a estar à volta da fogueira, em colos bons, mesas fartas e brinquedos desejados. Penso nisto, nas escolas e nos meninos e envergonho-me do nosso conformismo, da nossa indiferença e da nossa desistência.
Penso nisto e na nossa (eventual) impotência. Fazer o quê? se mais não for, nunca desistir. Continuar, fazer o que nos é devido, como o colibri, que combateu o fogo na floresta com bocadinhos de água que levava no bico e que, face à estranheza do elefante por reparar na pequenez da ajuda, lhe respondeu faço a minha parte. Façamos também a nossa. 

sábado, 10 de dezembro de 2016

Para o bem e para o mal

Respirar, neste sábado. Respirar forte e profundamente.
O dia ontem não foi de feição, consumiu quase todo o oxigénio disponível, aquele que anda lado a lado com a emoção, as crenças e as perspetivas, a amizade e o amor. O oxigénio que nos constitui como gente e nos alimenta a alma e o tempo. O oxigénio que nos faz sermos quem somos, exatamente assim e não de outra forma. Para o bem e para o mal.

Bem, ontem, foi a possibilidade de discussão, as ideias acesas e brigadas, porque somos gente da briga, (Paulo Freire), gente a reclamar o direito a pensar e a sentir. O bem, ontem, foi esse espaço de diálogo, talvez um pouco atropelado, vozes por cima e ao lado, à procura da melhor forma de pensar a planificação e a avaliação na educação de infância. Uma conversa desmedida, porque longas são as conceções que herdámos, incutidas em anos de escola, um quadrado é um quadrado, um cão é um cão, as grelhas dão jeito e as listagens de indicadores também, mede-se e pronto, põe-se a cruz e fica tudo ali, os meninos fatiados e descritos assim, aprendem ou não aprendem, e mostram ou não as aprendizagens e as evidências.

Bom ontem, não foi dizer isto, porque isto não se disse, foi saber que era isto que escorria por entre as palavras que se partilhavam, e poder de alguma forma, desocultar o sentido do aprender com as crianças e avaliar também com elas, em processos reais de interação, poder partilhado, negociação e cooperação.

Mal ontem, foi a impaciência perante estes restos de escola que moram dentro de nós, como uma espécie de zona de conforto e que impedem a adesão convicta a outros princípios e outras causas, exigindo uma formação longa, refletida, confrontada com a prática e os olhares de outros que sobre ela pensaram. Mal ontem, foi não atualizar, em contexto de discussão, que Roma e Pavia não se fizeram num dia e que necessitamos de conversar longamente sobre esta matéria, trocando por miúdos, o que queremos da educação de infância como lugar de desenvolvimento e aprendizagem de grandes e pequenos, com inclusão, diversidade e cuidado a todos e entre todos. 

Mal, ontem, foi ter experimentado o espartilho da formação, a escassez de tempo, o incómodo de não saber como fazer para destituir do seu pedestal, uma conceção bancária da educação em favor da educação problematizadora (Paulo Freire) que pensa e se pensa e se recria em coletivo e cooperadamente. Na avaliação e em muitos outros aspetos. 

Mal ontem foi ter ficado cansada e meia desistente, com uma irritação evidente, pouco controlada, que se amenizou à noite e desapareceu, pela visão do amor e da amizade, feito gesto de cuidado, atenção e solidariedade para com aqueles amamos, os amigos que precisam. 
Bem, ontem, foi a noite ter terminado assim, salpicada com um pouco de sofrimento, mas cheia da certeza de que cuidamos uns dos outros e que assim é que deve ser. Na vida, entre amigos. E nas escolas? E nas escolas, sim, também e sobretudo. 
Assim somos, a respirar, todos os dias. Para o bem e para o mal? Para o bem.